Cadomblé

CANDOMBLÉ DE CABOCLO.

O CANDOMBLÉ DE CABOCLO.

“Ainda tem caboclo debaixo da samambaia”
O caboclo é a entidade espiritual presente em todas as religiões afro-brasileiras, sejam elas organizadas em torno de orixás, voduns ou inquices. Pode não estar presente num ou noutro terreiro dedicado aos deuses africanos, mas isto é exceção. Seu culto perpassa as modalidades tradicionais afro-brasileiras — candomblé, xamba, catimbó, tambor de mina, batuque e outras menos conhecidas —, constitui o cerne de um culto praticamente autônomo, o candomblé de caboclo, se define estruturalmente a forma mais recente e mais propagada de religião afro-brasileira, a umbanda.
A origem dos candomblés de caboclo estaria no ritual de antigos negros de origem banto, que na África distante cultuavam os inquices — divindades africanas presas à terra, cuja mobilidade geográfica não faz sentido — e que no Brasil viram-se forçados a encontrar um outro antepassado para substituir o inquice que não os acompanhou à nova terra. Neste novo e distante país, que antepassado cultuar senão o índio, o caboclo, como diziam os antigos nordestinos? Os antigos habitantes, quem senão o verdadeiro e original “dono da terra”? Apesar de preponderantemente identificados como índios, há caboclos de diferentes origens míticas, como boiadeiros, pretos velhos , marinheiros ou marujos. Caracterizam-se, em geral, pela comunicação verbal e proximidade de contato com o público que freqüenta os terreiros. Eles brincam, entoam cantigas e tiram as pessoas para dançar ao som de seu alegre samba. Além da animação, outra característica marcante é seu poder de cura e a disposição para ajudar os necessitados, mais a sabedoria. Acredita-se que os caboclos conhecem profundamente os segredos das matas, podendo assim receitar com eficácia folhas para remédios e banhos medicinais. No imaginário popular, o caboclo é a um só tempo valente, destemido, brincalhão e altruísta, capaz de nos ajudar para o alívio das aflições cotidianas. As pessoas que acorrem aos cultos afro-brasileiros, sobretudo as mais pobres, encontram nesta entidade um sábio curandeiro, sempre pronto a vir em socorro dos aflitos.
O termo candomblé de caboclo teria surgido na Bahia, entre o povo-de-santo ligado ao candomblé de nação ketu, originalmente pouco afeito ao culto de caboclo, justamente para marcar sua distinção em relação aos terreiros de caboclos. Nos anos 30, de acordo com relato da antropóloga americana Ruth Landes, que esteve na Bahia num período entre 1938 e 1939, usavam-se as expressões mãe cabocla, seita cabocla, candomblé de caboclo em oposição aos termos dos candomblés africanos. De uma visita que fez ao terreiro de Mãe Sabina, famosa sacerdotisa cabocla, Ruth Landes registrou um diálogo significativo entre esta mãe-de-santo e outras mulheres do templo, diálogo do qual vale a pena relembrar este trecho:
Uma das mulheres, referindo-se à americana, pergunta a Mãe Sabina:
“Ela sabe qual é a nossa seita? Sabe que somos caboclos e os outros são africanos?
Ao que responde Sabina:
A senhora deve saber essas coisas. Este templo é protegido por Jesus e Oxalá e pertence ao Bom Jesus da Lapa. É uma casa de espíritos caboclos, os antigos índios brasileiros, e não vem dos africanos iorubás ou do Congo. Os antigos índios da mata mandam os espíritos deles nos guiar, e alguns são espíritos de índios mortos há centenas de anos. Louvamos primeiro os deuses iorubás nas nossas festas porque não podemos deixá-los de lado; mas depois salvamos os caboclos porque foram os primeiros donos da terra em que vivemos. Foram os donos e portanto são agora nossos guias, vagando no ar e na terra. Eles nos protegem.
Hoje, na diferenciação com outras nações de candomblé, como ketu, jeje, ijexá, nago, angola e congo, fala-se numa nação caboclo , mas raramente pode-se encontrar um candomblé de caboclo funcionando independentemente de um candomblé das outras nações. Embora muito associado ao candomblé angola, o rito caboclo já começava, à época da visita de Landes à Bahia, a ser incorporado também a candomblés de nação queto.
Na disputa por legitimidade e prestígio, os candomblés de caboclos foram considerados inferiores tanto pelo povo-de-santo como pelos pesquisadores, que deles escreveram muito pouco. O primeiro trabalho científico tratando com profundidade do candomblé de caboclo somente apareceu em 1995, com a publicação do livro O dono da terra, tese de mestrado defendida na USP pelo antropólogo baiano Jocélio Teles dos Santos. A dissimulação e mesmo a negação do culto aos caboclos nos terreiros marcados pela ortodoxia nagô, entretanto, mantém-se até hoje, sendo comum a acusação de que em tal ou qual terreiro ketu que não tem caboclo, a mãe-de-santo ou outra pessoa de prestígio recebe seu caboclo escondido ou, no mínimo, lhe oferece sacrifícios na mata. Apesar de considerado inferior, o candomblé de caboclo impregnou-se nas demais nações e por meio delas propagou-se pelo País. De seu encontro com o espiritismo kardecista, que resultou num grande embate ético, nasceu, no Rio de Janeiro dos anos 30, a umbanda, com o desenvolvimento de ritos, ritmos e panteão particulares. O velho candomblé de caboclo continuou, contudo, com vida própria e, num outro movimento, chegou de novo ao Rio de Janeiro e São Paulo, sempre associado ao candomblé de orixá e inquice, mas separado da umbanda. E como tal se mantém e se reproduz.
No candomblé de caboclo há predominância de muitos elementos do candomblé angola, os atabaques são tocados com as mãos, as músicas são cantadas em português, com uso freqüente de termos rituais de origem banto. O apelo a uma cultura indígena, quase sempre idealizada, proporciona ao candomblé de caboclo uma valorização de elementos nacionais, fazendo dele, na concepção popular, uma religião “brasileira por excelência”. Elementos simbólicos nacionais são ressaltados, como a menção às matas, as cores verde e amarelo, o sincretismo católico e a miscigenação racial. Em todo seu repertório musical fala-se muito desse amálgama cultural que é o Brasil. Esta matriz cabocla foi inteiramente absorvida pela umbanda, que na forma é um candomblé de caboclo, mas que contém uma elaboração ética da vida que separa o bem do mal nos moldes kardecistas completamente ausente na tradição cabocla e que fez da umbanda uma religião diferente e autônoma.
Hoje o candomblé não é mais uma religião étnica circunscrita à população negra, pois já se espalhou pela sociedade branca abrangente, rompendo preconceitos e fronteiras geográficas, inclusive para fora do País. Legitimou-se como mais uma opção religiosa e vem aos poucos garantindo seu espaço no disputado mercado religioso contemporâneo. A propagação desta religiosidade na populosa Região Sudeste, a partir dos anos 60, deu-se principalmente a partir dos terreiros umbandistas que aí existiam desde os anos 30 e 40. Numerosos filhos-de-santo da umbanda aderiram ao axé da tradição negro-baiana, cuja força vital era por eles considerada mais forte. A busca mágico-religiosa da satisfação de anseios do metropolita moderno tornou o candomblé uma religião universalizada, isto é, agora aberta a todos. É eloqüente o caso da fixação do candomblé em São Paulo (Prandi, 1991). Com o orixá, o inquice e o vodum do candomblé veio o caboclo do candomblé, que é ritualmente e doutrinariamente diferente do caboclo da umbanda.
No contexto da transformação religiosa que trouxe o candomblé do Nordeste para o Sudeste, que ainda encontra-se em curso, os caboclos certamente têm sido protagonistas decisivos, afinal seu culto foi mantido e está presente hoje em quase todos os terreiros de candomblé, sejam eles de rito angola, queto ou efã.
Caboclo em terreiro de candomblé
O candomblé de caboclo atualmente é praticado paralelamente ao culto de divindades africanas, estando associado aos terreiros de inquices, orixás e voduns . Tudo se passa como se houvesse duas atividades religiosas independentes, podendo mesmo se observar separação dos espaços físicos, não se misturando caboclo com orixá. Mas o pai ou mãe-de-santo é obviamente a mesma pessoa, assim como os ogãs alabês, os tocadores de atabaque, e outros sacerdotes. Enquanto o candomblé dos deuses exige um complexo e demorado processo de iniciação, no candomblé de caboclo não há propriamente algo correspondente à “feitura de santo”. Noviços passam a freqüentar os toques, podendo receber o encantado sem nenhuma preparação preliminar baseada em longo período de clausura. Num mesmo terreiro, há filhos “feitos”, iniciados, para orixás-inquices que também recebem seus caboclos, mas é possível observar número expressivo de filhos que recebem caboclo e participam ativamente do candomblé de caboclo, mas que nunca são iniciados para a divindade africana, comportando-se ritualmente nos toques de orixás como simples abiãs, iniciantes. Também não participam das cerimônias sacrificiais aos orixás, reservadas aos filhos de orixá “feitos”. Em muitos terreiros, contudo, primeiro observa-se a iniciação do filho-de-santo para o orixá, ocorrendo depois, geralmente na obrigação de um ano, a “chamada” do caboclo, que então incorpora no novo filho, podendo ser batizado ou não em cerimônia descrita mais adiante.
O caboclo de candomblé, como os orixás, também pode ter assentamento, isto é, uma representação de base material, com instrumentos de ferros e outras insígnias fixadas numa vasilha, em geral um alguidar, junto ao qual se depositam as oferendas: seu altar. Também pode ter seu quarto-de-santo, geralmente uma cabana ou um espaço aberto ou semi-aberto localizado no quintal do terreiro, área que o caboclo compartilha com orixás e inquices identificados com o mato e os espaços abertos, como Ogum ou Incôci, Oxóssi ou Gomgobira, Ossaim ou Catendê.
Os caboclos são espíritos dos antigos índios que povoavam o território brasileiro, os antigos caboclos, eleitos pelos escravos bantos como os verdadeiros ancestrais em terras nativas. São espíritos, não deuses. São eguns, na linguagem do candomblé nagô. Ao caboclo índio também se designa “caboclo de pena”, referência aos penachos e cocares que usa quando em transe para marcar sua origem indígena. Mas há também caboclos de outras procedências: os caboclos boiadeiros, que teriam um dia vivido no sertão na lida do gado e que usam o chapéu característico de sua antiga ocupação; os marujos ou marinheiros, sempre cambaleantes por causa do “tombo do mar” que marca a vida nos navios. Alguns caboclos são originários de lugares imaginários, como a Vizala ou a Hungria.
No candomblé, os caboclos, que também podem ser do sexo feminino, são considerados filhos dos orixás e os próprios caboclos incorporados a eles assim se referem, quando dizem que foi o pai ou a mãe que os mandou vir à terra para a celebração do toque, ou quando vão embora e dizem que foi o pai ou a mãe que chamou. Estabelece-se assim uma correspondência entre a paternidade do caboclo e do filho-de-santo, de sorte que filhos de Oxum têm caboclos de Oxum, filhos de Xangô têm caboclos de Xangô e assim por diante. Vejamos uma lista de caboclos e caboclas com os respectivos orixás, notando como os nomes dos caboclos tendem a fazer referência a atributos do orixá:
Ogum – Caboclo do Sol, Pena Azul, Giramundo, Serra Azul, Serra Negra, Sete Laços, Trilheiro de Vizala, Sete Léguas, Rompe Mato, Laço de Prata;
Oxóssi – Mata Virgem, Pena Verde, Jurema, Arranca-Toco, Sete Flechas, Urubatam;
Ossaim – Junco Verde, Boiadeiro das Matas, Floresta, Guarani;
Omolu – Girassol, Tupinambá, Xapangueiro, Cambaí;
Nanã – Treme Terra, Cabocla Camaceti, Rei da Hungria;
Oxumarê – Cobra Coral, Cobra Dourada;
Xangô – Mata Sagrada, Boiadeiro Zamparrilha, Boiadeiro Trovador, Boiadeiro Corisco, Sete Pedreiras;
Iansã – Ventania, Vento, Jupira, Zebu Preto, dos Raios;
Obá – Pena Vermelha;
Oxum- Lua Nova, Lua, Jandaia, Cabocla Menina, Estrela Dourada, Sultão das Matas;
Logun-Edé – Laje Grande, Laje Forte, Bugari;
Iemanjá – Sete Ondas, Indaiá, Juremeira, Estrela, Sete Estrelas, Iara;
Oxalá – Pedra Branca, Pena Branca, Lua Branca, Águia Branca.

Caboclos e orixás são tratados nos candomblés como entidades de naturezas diferentes. Além das distinções de caráter meramente formal, há aspectos que os distinguem e que são importantes na relação que se estabelece entre cada um deles e seus devotos.
Todo filho-de-santo deve ser iniciado para um determinado orixá (ou inquice, ou vodum), que é considerado seu antepassado, seu pai ou mãe, sua fonte de vida. A iniciação implica recolhimento e ritos complexos que envolvem somas de dinheiro elevadas, nem sempre compatíveis com a extração social dos adeptos das religiões afro-brasileiras, em geral, pobres. O culto do caboclo não requer processo iniciático deste tipo, podendo ocorrer em algumas casas o batismo do caboclo, um ritual de confirmação bem mais simples que a “feitura”.
Enquanto os deuses africanos vêm aos terreiros para dançar e falam apenas com algumas pessoas com cargos sacerdotais, os caboclos dirigem-se diretamente a todos que os procuram nos toques ou nas festas. Conversar é sua característica marcante. Todo caboclo é falante. Pode ser simpático ou carrancudo, amigável ou arredio, irreverente ou reservado, mas é sempre falador. Para se conhecer a vontade dos orixás é preciso recorrer ao jogo de búzios, que somente a mãe ou pai-de-santo pode jogar. Parecem um tanto distantes, portanto. Já os caboclos dizem o que sentem sem nenhuma mediação. A relação com o cliente é direta, face a face.
A língua é outro fator importante nesta distinção, pois grande parte das pessoas que vão aos terreiros não compreende as línguas rituais derivadas do iorubá, fom ou quicongo e quimbundo em que se cantam as cantigas. Nem mesmo a maioria dos filhos-de-santo sabe o que está cantando, pois as línguas rituais hoje são intraduzíveis. Aos caboclos, pelo contrário, canta-se em português. Suas cantigas são simples e sugestivas, com expressões e termos conhecidos do catolicismo tradicional e do imaginário popular. Um culto assim é menos afro e mais brasileiro, ou seja, mais “nosso” para muita gente.
Em alguns terreiros, os caboclos são concebidos como “mensageiros” dos orixás. Segundo alguns pais-de-santo, eles são transmissores das vontades divinas, afinal “eles falam o que os orixás não podem falar”. Mãe Manodê, 78 anos, chefe do terreiro angola que foi o primeiro a se estabelecer em São Paulo como terreiro de candomblé, nos anos 60, diz:
O caboclo é mensageiro dos orixás. Ele tem que fazer o que os orixás mandam: consulta, ebó da prosperidade, ebó da bênção… É o orixá que determina, aí então o caboclo pega o filho-de-santo para fazer ebó.
Mãe Manodê, reforçando a idéia da subordinação deles aos orixás, afirma a importância dos caboclos como mediadores na relação dos clientes com os orixás, dizendo que afinal “eles sabem dar palestras”, isto é, conversar com desenvoltura com fiéis e clientes, coisa que orixá não faz. Esta antiga mãe-de-santo baiana reivindica ainda para o candomblé angola a exclusividade da devoção aos caboclos: “O candomblé queto não cultua caboclo. O que existe hoje é invenção dessa gente. Caboclo sempre foi de angola, sempre, desde a Bahia. Depois o queto copiou.”
Hoje em São Paulo dificilmente o caboclo pode ser usado como divisor de águas entre as nações de candomblé de origem banto e iorubá ou nagô, embora todos reconheçam que sua origem está inscrita nos antigos terreiros de candomblé angola e congo da Bahia, cujas expressões maiores são os terreiros do Bate Folha e o Tumba Junçara, ambos em Salvador, ambos centenários. O caboclo está presente nos candomblés de todas as nações. Não é cultuado em apenas uns poucos terreiros africanizados, embora haja terreiros africanizados com culto de caboclo. Mesmo terreiros tributários dos mais antigos terreiros queto da Bahia cultuam caboclo, ainda que o culto se resuma a uma única festa anual.
Batismo de caboclo
Os ritos do candomblé de caboclo são bastante simples quando comparados com as cerimônias devidas a orixás e demais divindades africanas. Na medida em que o caboclo vai sendo incorporado ao cotidiano dos candomblés de orixá-inquice, algumas cerimônias tendem a ganhar complexidade, às vezes nos moldes destes cultos. O rito relatado a seguir, observado em terreiro paulista de candomblé angola-ketu, é bastante emblemático.
À época esse terreiro realizava sessões semanais de consultas com caboclos, em que um público de baixa renda, na maior parte, acorria em busca de soluções para toda sorte de problemas.
Nesse terreiro, após ser realizada a obrigação de um ano de iniciação para o orixá do filho-de-santo, é marcada a data em que o caboclo é chamado a possuir o iaô, tornando-se o caboclo mais uma das entidades de culto particular do filho-de-santo, que além do orixá principal, o dono de sua cabeça, deve obrigações ao juntó (o segundo orixá) e ao Exu (mensageiro do orixá principal), ambos também assentados na obrigação de um ano.
Previamente a mãe-de-santo solicitou ao filho-de-santo os seguintes itens necessários ao ritual: um alguidar grande, uma quartinha de barro sem asas, um litro de azeite de dendê, um litro de vinho doce, um litro de mel, um quilo de sal, cebola, nós moscada, canela, cravo, gengibre, uma pemba branca, velas brancas e coloridas, além de outros itens secundários. Consultando o oráculo do jogo de búzios, a mãe-de-santo fez ver a vontade do caboclo, que solicitou como oferenda três galos, duas galinhas e um casal de codornas. Segundo a mãe-de-santo, também Exu respondeu no oráculo, indicando sua vontade de receber um galo em sacrifício.
Nesse terreiro, o caboclo é assentado após o conhecimento do seu ponto riscado, espécie de desenho que o mesmo faz no chão com pemba branca, a partir do qual uma ferramenta é confeccionada em ferro. Este símbolo, acompanhado de búzios, moedas e folhas frescas é fixado num alguidar com cimento, preparado com areia numa mistura com o amassi do caboclo (ervas maceradas em água). No caso aqui relatado, somente dali a algum tempo o assentamento definitivo seria feito, pois antes da cerimônia o caboclo ainda não se fizera conhecer.
Na noite anterior ao dia marcado, o filho-de-santo dirigiu-se ao terreiro levando consigo todo o material necessário. Na manhã seguinte, acompanhado de outros dois filhos-de-santo, dirigiu-se a uma mata próxima ao terreiro onde colheu folhas de aroeira, cipó-caboclo, goiabeira, mangueira, guiné, comigo-ninguém-pode, fumo, eucalipto, são-gonçalinho, além de arruda e tapete-de-Oxalá, que eram cultivados no próprio terreiro. As folhas seriam maceradas e serviriam para lavar o alguidar e a quartinha de barro do caboclo. É interessante observar que o filho-de-santo não banhou-se com essas ervas, banhando-se com o abô (infusão de ervas que permanece num pote e que temporariamente é renovada) pertencente ao rito dos orixás.
A mãe-de-santo, acompanhada apenas do axogum (sacerdote do candomblé de orixá responsável pelo sacrifício dos animais), dirigiu-se ao quarto de Exu onde realizou o sacrifício do galo. Os dois entoaram alguns cantos e saudaram Exu, trazendo no final do ritual um alguidar de farofa amarela (farinha de mandioca com azeite de dendê), da qual sete punhados foram jogados na rua.
Enquanto o animal de Exu era limpo na cozinha-do-santo, a mãe-pequena da casa incensou todo o terreiro entoando as seguintes cantigas:
Incensa, incensado a casa do meu avô
Incensa, incensado em nome do Senhor

Estou orando, estou incensando (bis)
A casa do Bom Jesus da Lapa (bis)
Nossa Senhora incensou seus bentos filhos
Incensou para cheirar
Eu também vou incensar a minha casa
Para sorte e a felicidade entrar
Com todos os membros do terreiro reunidos no barracão (como é conhecido o salão de danças do terreiro), a mãe-de-santo deu início ao ritual propriamente dito. Os ingredientes anteriormente citados estavam colocados sobre uma esteira, em que também estava sentado o filho-de-santo.
A mãe-de-santo entoou algumas rezas que são chamadas Angoroci, saudando e pedindo licença a todos os orixás para cumprir o ritual em louvor do caboclo. Tomou um adjá (campainha ritual) e começou a chamar, através de toadas, os caboclos conhecidos no terreiro:
Angoroci daraa auê (bis)
Angoroci mene mene
Tateto Sultão das Matas, oi si!
Assim sucessivamente saudou os caboclos Pena Branca, Juremeira, Laje Grande, Pena Dourada. Logo depois, aproximando-se do filho-de-santo, soando o adjá. Acompanhando a mãe-de-santo, todos os presentes gritavam:
Xeto marrumbaxeto
Xeto na Vizala
Xeto á!
Os gritos repetiram-se muitas vezes até que, num dado momento, o corpo do filho-de-santo começou a tremular. Seus gestos davam a impressão de estar passando por uma convulsão, sendo amparado por uma equede (espécie de aia do orixá) e pela mãe-pequena. Em seguida, todos ouviram um grito estridente, como se fora o de um pássaro. Era o caboclo que havia possuído em transe o filho-de-santo ali sentado. Era seu sinal.
Todos os presentes saudaram o caboclo que acabara de chegar com gritos de Xeto marrumbaxeto, a saudação aos caboclos, e muitas palmas. O caboclo em transe parecia muito esquivo. Em muito havia se modificado o semblante do filho-de-santo, bem como seus movimentos físicos.
O caboclo saudou a mãe-de-santo com certa cerimônia, abraçando-a apenas. Nenhum outro tipo de cumprimento foi feito, tal como o beijar a mão ou o deitar-se no chão aos pés do outro, gestos típicos, e obrigatórios, na etiqueta dos terreiros de orixás e inquices. A mãe-de-santo então perguntou ao caboclo seu nome e pediu que entoasse seu canto de chegada. Com ar circunspecto, ele identificou-se como Caboclo da Lua e cantou:
Caboclo flecheiro, sou da nação do Brasil
Sou da nação do Brasil, sou caboclo
Caboclo flecheiro
Todos os presentes, demonstrando grande alegria, gritavam entre palmas: Xeto marrumbaxeto, xeto na Vizala, xeto á!
O caboclo manteve-se ajoelhado e ligeiramente curvado na esteira. A mãe-pequena colocou as folhas que haviam sido colhidas pela manhã dentro de um alguidar grande, juntando-lhes água e macerando-as em seguida, tornando essa mistura num líquido verde escuro de forte e agradável olor, com que lavou o alguidar e a quartinha pertencentes ao assento do caboclo.
A mãe-de-santo mandou vir os animais a serem sacrificados, mas, antes do início dos sacrifícios, despejou no alguidar um pouco de água, azeite de dendê e mel. Num pote reservado ao preparo da bebida ritual dos caboclos colocou os mesmos ingredientes acrescidos de canela, cravo e noz-moscada. A mãe-de-santo iniciou o ritual entoando uma cantiga de saudação à casa, há muito incorporada ao repertório da música popular brasileira:
Ó Deus vos salve esta casa santa (bis)
Onde Deus fez a morada
Onde mora o cálice bento
E a hóstia consagrada
Depois disso, o axogum, auxiliado por outro ogã, imolou com uma faca os galos, enquanto todos cantavam:
Carangolo batula sangue
Sangue na xoro ro
Moasi sauere sangue na xoro ro

Sangue na palangana com maleme tateto
Sangue na palangana com maleme mameto
Em seguida foi a vez das galinhas, mas desta vez com a cantiga:
Sangue mona sa que sa la
coro mo sangue o (bis)
O casal de codornas foi dado ao caboclo, que sacrificou as aves mordendo o pescoço e tomando do sangue que brotava. Nesse momento era cantada a cantiga:
Batula batula san
Sangue na xoro ro
Moaci sauere sangue na xoro ro
O sangue das aves maiores foi derramado dentro do alguidar e em seguida no pote de barro colocado ao lado deste, sendo mexido com uma colher de pau pela mãe-pequena. A mãe-de-santo marcava com o sangue das aves as têmporas do filho-de-santo “virado” no caboclo, que, a cada animal sacrificado, emitia seu grito, seu ilá, saudando a oferenda recebida.
As cabeças e os pés das aves foram colocados num pequeno alguidar, que depois foi enfeitado com as penas das mesmas.
Terminado o sacrifício, os animais foram levados à cozinha para serem limpos e cozidos, enquanto outra cantiga era entoada:
Batulé sai andando com os pés
Batulé sai andando com os pés
As asas, o pescoço, o fígado, o coração e a moela de cada ave, depois de cozidos, foram oferecidos ao caboclo, as demais partes foram comidas pelos membros do terreiro, acompanhadas de outras iguarias como milho cozido, moranga cozida, arroz e farofa.
O alguidar contendo o sangue dos animais, a quartinha com água, as partes cozidas dos animais, além de milho cozido temperado com sal e azeite de dendê colocado numa moranga cozida foram depositados, juntamente com frutas diversas, aos pés de uma árvore de são-gonçalinho existente no terreiro.
Todos os filhos da casa beberam da mistura denominada menga, que, como nos garantiram, é uma bebida muito apreciada por todos.
O Caboclo da Lua permaneceu “em terra” até que as comidas estivessem cozidas. Conversou com todos, bebeu cerveja e só não dançou porque naquela dia não havia toque.
Em outra ocasião tivemos a oportunidade de vê-lo paramentado com um cocar feito de penas de papagaio, vestindo um bombacho em tecido estampado. Trazia um atacam (espécie de faixa) amarrado no tronco, terminando num laço preso às costas. Numa das mãos trazia uma lança de ferro e na outra, um galho de aroeira. Cantou e dançou então ágil, garboso e completamente integrado à comunidade do terreiro. Já havia sido batizado e, conforme nos foi informado, seu assentamento já havia sido “firmado”.
Os sacrifícios aqui descritos são repetidos com regularidade, geralmente no intervalo de um ano. Mesmo terreiros que não fazem o batismo conduzem as cerimônias sacrificiais nos moldes do que aqui foi mostrado. Dificilmente haverá alguma festa que não seja precedida de sacrifício.
Toque de caboclo
Primeiro uma distinção: toques ou giras são cerimônias públicas periódicas, em que os caboclos vêm para “trabalhar”, isto é, dar consulta aos necessitados, oferecer conforto aos carentes. Festas são celebrações públicas, geralmente anuais, em que os caboclos vêm para serem homenageados, para dançar e conviver com seus devotos e amigos, como ocorre com as festas dos orixás.
Em São Paulo os toques de caboclo podem ser semanais, quinzenais ou mensais. Em alguns terreiros não têm periodicidade, podendo-se tocar eventualmente. Há pequenas variações de caso para caso, mas em geral eles têm essa seqüência: padê (oferenda de farofa com dendê para Exu), xirê (cantos em língua ritual, geralmente do rito angola, para os orixás ou inquices), Angoroci (espécie de louvor aos caboclos), chegada dos caboclos no transe ritual, cantos de invocação, intervalo para paramentar os caboclos, retorno dos caboclos ao barracão com seus cumprimentos e danças e, finalmente, consultas à assistência.
Os caboclos fumam charutos — fumar é o atributo indígena por excelência — e bebem bebidas alcoólicas (cerveja, vinho e a bebida ritual jurema), que costumam compartilhar com seus consulentes. Algumas equedes auxiliam nas consultas, seja traduzindo algumas expressões ou tomando notas. Nos toques as pessoas formam filas para a consulta e em algumas casas chegam até a utilizar senhas. É grande a semelhança com uma sessão de umbanda.
A ênfase das consultas é a cura dos males do corpo, chamando a atenção a quantidade de idosos entre os consulentes. Alguns trazem velas, outros flores ou algum outro artefato prescrito anteriormente pelo caboclo. O fato é que todos depositam nele suas esperanças e com ele mantém relação de cumplicidade. Problemas afetivos, da intimidade ou de ordem material são também abordados, mas secundariamente. Para essas questões parece haver duas alternativas: procurar entidades da umbanda como exus, pombagiras e baianos ou recorrer ao oráculo do jogo de búzios, que é prerrogativa do pai ou mãe-de-santo, sem intermediários. Esta última opção é sem dúvida importante na estratégia dos terreiros de candomblé, seja porque abre caminho para o ingresso de um novo aspirante, que deverá aprofundar seus laços também com os orixás, seja porque gera renda, dado que o jogo de búzios é invariavelmente pago. Os caboclos podem sugerir ao consulente qual seria seu orixá, mas convidando-o a voltar outro dia e jogar búzios com a mãe-de-santo, a fim de obter a confirmação sobre o seu “dono de cabeça”.
Ainda com relação à distinção entre consulta espiritual com caboclo e jogo de búzios, vale apontar que o primeiro é considerado subordinado ao segundo, cabendo ao jogo de búzios as decisões consideradas mais sérias e as confirmações. Como nos contou um pai-de-santo:
O caboclo ensina banho, remédio, mas não desfaz um malfeito, ele apenas alivia. Ele pode dizer o que foi feito, mas não pode tirar. Isso só é feito com ebó, depois do jogo de búzios.
A comunicação com os caboclos nos toques atende portanto a pessoas que buscam respostas imediatas e acessíveis, senão gratuitas, a suas aflições. É também uma porta de entrada para o jogo de búzios, o qual pode significar um início do processo de arregimentação religiosa, uma vez que o adepto em potencial passa a interagir mais de perto com a mãe-de-santo, ou então a consolidação da condição de cliente.
Festa de caboclo
As festas de caboclo acontecem anualmente em data que varia de terreiro para terreiro, embora alguns prefiram o 2 de julho, segundo a tradição baiana . São em geral grandes encontros dos quais participam, além dos filhos-de-santo da casa, amigos, parentes dos iniciados, clientes, simpatizantes e convidados de outros terreiros.
Diferente dos toques, as festas não são caracterizadas pelo atendimento ao público, mas sim pelas danças, brincadeiras e pela comida que é distribuída ao final. Nessa ocasião os caboclos não vêm para “trabalhar”, mas para ser homenageados.
Segundo a forma que mais se observa, a festa de caboclo é iniciada com um toque aos inquices. Mesmo os terreiros de tradição iorubá (queto e efã) costumam realizar esta parte preliminar do culto com ritmos e cânticos do candomblé angola, reconhecidamente a nação mais próxima dos caboclos, embora haja terreiros queto que tocam em queto quando os orixás são homenageados nesta primeira parte da festa de caboclo.
Segundo o costume angola, toca-se primeiro para Pambu Njila-Bombogira-Aluviá (Exu), com uma oferta de farofa e bebida ou água, depois para os inquices masculinos, aproximadamente nesta ordem: Roximucumbe-Incôci, Catendê, Gomgobira-Mutacalambô, Cafunã-Cavungo, Angorô, Tempo, Zázi, Vúngi. Seguem-se os cânticos para os inquices femininos, Matamba-Bamburucema, Dandalunda, Nzumba, Cucuetu-Caiá, encerrando-se com a homenagem a Lembá e Nzambi.
Na festa ocorrida em 6 de setembro de 1998 no terreiro de candomblé angola Sociedade Beneficente Caboclo Sete Flechas, também conhecido como Inzo N’kisi Mussambu, localizado em Carapicuíba, na Grande São Paulo, depois da seqüência de cantigas aos inquices e antes do início das homenagens aos caboclos, ouviu-se a preleção de Tata Tauá, o pai-de-santo, que interrompeu o toque e falou:
Bem-vindos todos. O pessoal de outros terreiros, as visitas, os da umbanda sintam-se todos em casa. Esta é uma festa de caboclos. Mas alguém pode perguntar: “por que estão cantando para inquice?” Nós louvamos primeiro os inquices por uma questão de espaço físico. Eles são donos desse espaço aqui e por isso nós cantamos para eles antes. Mas caboclos e inquices não têm nada a ver, eles têm fundamentos diferentes. São duas coisas diversas. Como não temos um espaço separado para cada um, cantamos primeiro para os inquices e pedimos licença. Nós vamos cantar agora pra caboclo.

O terreiro está todo enfeitado para a ocasião. O barracão está ornado com as características bandeirinhas de papel de seda forrando o teto. Folhas, flores e objetos indígenas decoram as paredes. Num quarto ao lado foi armada a junça, o quarto do caboclo, povoado de imagens de caboclos e objetos indígenas, onde estão as comidas preparadas com as carnes dos sacrifícios realizados no dia anterior, muitas folhas e uma enorme profusão de frutas. A cabana do caboclo é um elemento indispensável na festa de caboclo, podendo ser montada, com bambu e folhas de coqueiro, no próprio barracão, quando o espaço o permite, ou fora dele. Nunca faltará a moranga, prato predileto do encantado, nem o pote de jurema, bebida fermentada preparada com a casca do arbusto da jurema (Pithecolobium torti), devidamente trazida da Bahia, vinho doce, mel, nós moscada, gengibre, cravo e canela, ao que alguns terreiros adicionam sangue dos sacrifícios ou dendê, e que em certas casas recebe o nome de menga.
“Abre-te campo formoso…” Com este verso, de uma cantiga que faz alusão ao local imaginário onde os seres encantados habitam, dá-se início à chamada dos caboclos, para mais uma vinda deles ao mundo dos mortais, ao mundo do candomblé.
Não importa o local do encontro, se pequeno e modesto, imenso e abarrotado de símbolos do imaginário dos terreiros, o mais importante é a festa em si, sinônimo de reunião de pessoas com o fim de louvar, orar e estar na companhia dos caboclos.
Na abertura, ao som dos atabaques e demais instrumentos de percussão (xequerê, maraca, agogô etc.), canta-se:
Abre-te campo formoso (bis)
Cheio de tanta alegria
Cheio de tanta alegria
A atmosfera do terreiro já é de muita alegria e, com uma segunda cantiga, os caboclos são chamados a participar da festa:
E lá vem seu boiadeiro
E lá vem seu capangueiro
Cheio de tanta alegria
Cheio de tanta alegria
No terreiro Inzo N’kisi Mussambu, a mãe-de-santo dança rodeada por seus filhos, que chamam pelo maior caboclo da casa, Sete Flechas, gritando “Xeto Marrumbaxeto!” Chega o caboclo da mãe-de-santo com seu ilá, seu grito característico. É uma grande festa. Um a um os caboclos vão apossando-se de seus “cavalos” (filhas e filhos-de-santo por eles possuídos). Ouvem-se palmas, salvas, gritos. Batendo compassadamente a mão espalmada na boca, os filhos-de-santo emitem um som muito característico, como o que se ouve em filmes americanos de índios. O clima de entusiasmo ganha o espaço do terreiro num crescendo.
A entrada em transe ganha todas as atenções e um a um os filhos e filhas vão se deixando “tomar” por seus encantados. Mas depois de certo tempo ainda resistem heroicamente ao transe alguns “cavalos”, vários deles demonstrando por gestos e expressões faciais que não desejam ser “possuídos”. Aqui observa-se algo inscrito no código do terreiro, revelando uma dimensão da distribuição hierárquica do poder religioso no candomblé. Os “mais velhos de santo”, isto é, iniciados há mais tempo, demoram um pouco mais a serem possuídos. Detêm maior controle do transe, pois conhecem o código da possessão mais apuradamente, podendo manobrar seus sinais e sabendo “correr” na hora em que esses sinais se fazem sentir mais agudamente. Com o adiamento do transe, afirmam sua posição na hierarquia do grupo de culto. Isto faz parte da “cena” da possessão.
Na tentativa de trazer mais caboclos para o encontro, os ogãs, assumindo ares de superioridade que os caracteriza, põem-se a cantar:
Ainda tem caboclo debaixo da samambaia
Ainda tem caboclo debaixo da samambaia
Debaixo da samambaia
No pé da samambaia
Ainda tem caboclo
Os renitentes vão por fim deixando aflorar o encantado. Não se pode escapar ao poder desta cantiga “de fundamento”. Quem não quer entar em transe tem que sair do barracão até passar o perigo.
Estão todos “em terra” agora: caboclos e caboclas, boiadeiros e marujos. É hora de paramentar os encantados. É costume levar os caboclos em transe para o roncó (quarto de reclusão) para serem vestidos com trajes completos ou ao menos serem adornados com os atacans, espécie de tiras de pano amarradas no tronco, terminadas em laços, de modo a permitir livres movimentos nas danças. Vestem-nos com tecidos de uma profusão de cores. Cocares de penas e chapéus de vaqueiro adornam as cabeças, dependendo se são caboclos ou boiadeiros. Alguns trazem nas mãos lanças, arco-e-flecha ou chocalhos.
Vestidos, voltam em fila ao barracão, dançando a seguinte cantiga:
Toté, toté de maiongá
maiongonbê (bis)
Dançam com o corpo inclinado para frente, com os braços estendidos à frente do corpo, num movimento de vai-e-vem. Os pés acompanham o movimento dos braços, levando o corpo para a frente. Ao mesmo tempo, cumprimentam os presentes, dando precedência às autoridades religiosas presentes, terminando com os mais simples presentes na platéia que se aglomeram no espaço do barracão reservado aos clientes e visitantes.
A precedência por tempo de iniciação também é observada no momento em que os caboclos retornam ao barracão e também no momento em que cada um saúda a casa e o público presente com suas salvas e cantos de chegada. Um por um, numa ordem que revela a importância do tempo de iniciação na composição da hierarquia dos caboclos, começando pelo caboclo da mãe ou pai-de-santo, seguido dos mais velhos, cada caboclo posta-se na frente dos atabaques, um joelho apoiado no chão, e canta as cantigas que lhe dão identidade. O caboclo reza sua oração e todos cantam com ele.
Dentre muitas cantigas do vasto repertório dos caboclos, poderemos escutar:
E boa noite meus senhores
Boa noite minhas senhoras
Sou eu, Sete Flechas que cheguei aqui agora
Ou ainda:
Campestre Verde, a meu Jesus (bis)
Madalena e Maria no pé da cruz (bis)
Com sete dias minha mãe me deixou (bis)
Me deixou numa clareira
Osanha quem me criou (bis)
É um xeto ê, é um xetô a (bis)
Boiadeiro Trilheiro veio aqui prá vos saudar (bis)

E assim vão cantando e dançando no ritmo frenético dos atabaques.
Ouve-se um misto de louvações sobre as coisas e lugares do Brasil, saudações aos orixás ou alusões a Jesus Cristo e santos católicos, emergindo daí todo um sincretismo presente com certeza nesse culto dos caboclos, os ditos senhores desta terra.
Como exemplo, citamos alguns cantigas:
E lá em Roma tem uma igreja (bis)
E dentro dela tem morador (bis)
Lá tem um anjo de braços abertos (bis)
E esse anjo é Nosso Senhor (bis)

Aqui nesta aldeia
tem um caboclo que ele é real
Ele não mora longe
mora aqui mesmo neste cazuá

Pisa caboclo aqui nesta aldeia
Mostra o teu sangue que corre nas veias (bis)

Caboclo flecheiro, tú és da nação do Brasil
Tu és da nação do Brasil, meu caboclo
Caboclo flecheiro

Mas ele vem pelo rio de Contas
Vem caminhando por aquela rua (bis)
Olha que beleza, seu Lua Nova
no clarão da lua (bis)

Caça, caça no Canindé
Cura ê, cura ô
Caça, caça no Canindé
Pena Verde é caçador

Aê Juçara, dona Juçara eu vim te ver
Aê Juçara, dona Juçara como vai você

Pedrinha de um lado
Pedrinha do outro
Pedrinha lá na mata é
Quem pode mais é Deus do céu
Jesus, Maria e José

Pedrinha miudinha na aruanda ê
Lajedo tão grande
Tão grande na aruanda ê
Não somente os ogãs puxam as cantigas, mas também os caboclos apreciam fazê-lo. Muitas vezes as cantigas trazem um pouco da história mítica de cada um, assim:
Aê Iemanjá (bis)
Rainha sereia
Sô Cabocla do Mar (bis)

Sô caboclo, sô flecheiro
Sindara cuiá
Sô Oxossi, sô guerreiro
Sindara cuiá
Eu venho lá da mata
Sindara cuiá
Sô filho de Iemanjá
Sindara cuiá

Verde e amarelo
Mar do norte e sul
Sô Cabocla do Mar
Andando no mar azul

Caboclinho da mata virgem
das ondas do mar
Sô filho da Vizala
Filho da sereia do mar
Apesar da aparente desordem no barracão, os caboclos respeitam-se entre si e se fazem respeitar por todos os presentes. São criteriosos ao solicitar algo, mesmo que seja um charuto ou uma bebida, e fazem-no de modo jocoso, revelando contudo sempre um formalismo, cuja etiqueta faz parte das exigências cotidianas do candomblé:
Ô dona da casa
Por Deus e Nossa Senhora
Dá-me o que beber
Senão eu vou-me embora!

Sem beber não faço samba
Sem beber, não sei sambar
Se por um lado existe o respeito mútuo, por outro pode-se estabelecer entre eles a disputa pela melhor performance nas danças, ou o chamado “sotaque”, em que um chama o outro para uma espécie de desafio de cantigas, duelo verbal tão caro à cultura popular nordestina.
Depois é hora de dançar por sobre uma vara de madeira colocada no chão em frente aos atabaques. Os caboclos devem dançar pulando de um lado a outro da vara, como se estivessem embriagados, sem tropeçar ou mover o objeto no chão. Neste ato lúdico, a disputa é sempre acirrada e muitas vezes cria uma verdadeira competição na qual o caboclo do dono da casa deverá sempre sair-se bem, sob pena de ver posto em dúvida seu poder mágico. Afinal, as entidades do chefe da casa, quer se trate de orixá, inquice ou caboclo, são sempre consideradas as mais poderosas.
Entre outras cantigas podemos citar:
Ô piaba, pula por cima do pau
ô piaba (bis)

Bate tambor solta a piaba
Caboclo do junco
caboclo da mata

Caboclo na mata corta dendê
dendê de samba angolê
A festa é uma profusão de danças, em que um a um os caboclos vão fazendo seu solo. Os ritmos, muito próximos do samba da música popular que deles se originou, são alegres e contagiantes. Os encantados puxam suas cantigas que são repetidas pelos alabês, demais caboclos, adeptos e simpatizantes da platéia. Fumam charuto o tempo todo e bebem numa cuia um preparado fermentado, quando não vinho, cerveja ou outra bebida alcoólica. Os alabês tocam os três atabaques, sempre percutidos com as mãos, em ritmos característicos do candomblé angola, enquanto os caboclos oferecem sua cuia aos amigos e autoridades presentes, os quais bebem virando-se de costas para o caboclo, para que ele não o veja beber, conforme manda a etiqueta dos tempos em que não se bebia na presença dos “mais velhos”.
Mais adiante os caboclos convidam presentes a dançar uma ou outra cantiga, fazendo grande estardalhaço:
Se eu era branco eu não era caboclo
Põe a moça bonita pra dançar na roda
Não se estabelece rigorosamente a duração da festa. O caboclo do dono da casa é autoridade máxima nesse ritual e decidirá, na maioria das vezes, quando deve ser finalizada a festa.
Ao final, um ogã canta uma cantiga de agradecimento a Deus pela presença dos caboclos. É o deus cristão que é lembrado:
Graças a Deus, ora meu Deus
Louvado seja Deus, ora meu Deus
Graças a Deus, ora meu Deus
O dia em que Laje Grande nasceu
ora meu Deus.
O caboclo da dona da casa agradece a todos pela presença. Seguido pelos outros caboclos, abraça cada um dos presente, e finalmente canta sua despedida:
Eu já vou, já vou
Eu já vou prá lá
O meu pai me chama,
eu sou filho obediente
Eu não posso mais ficar
Novamente a fila dos caboclos é precedida por ele e dançando, um a um, cumprimentam a porta do terreiro, o ariaxé (ponto da força sagrada do terreiro), os atabaques, e encaminham-se para o roncó onde são despachados. Antes saúdam os presentes com os abraços característicos do candomblé, em que se tocam os ombros alternadamente por três vezes.
Às vezes a saída dos caboclos vai se fazendo aos poucos, retirando-se primeiro os com menos tempo de iniciação, enquanto os outros continuam dançando, até sobrarem dois ou três, que insistem em querer ficar:
Eu estava indo deste arraial
Eu já ia embora deste arraial
Resolvi, não vou mais
Todos aplaudem e apoiam a decisão do caboclo, mas já é hora da festa terminar e sempre alguma autoridade do terreiro mostrará ao caboclo que seu tempo acabou.
Aos poucos os filhos “desvirados” vão voltando ao barracão. Todos estão cansados, cavalos e ogãs. Apesar dos semblantes exaustos de cada um dos presentes, todos demonstram contentamento. Muitas palavras de alento também foram escutadas dos caboclos. A festa não foi somente canto e dança. Os caboclos estiveram na terra também para trazer mensagens, talvez dos próprios orixás, ensinaram beberagens para vários males, assim como deram conselhos a muitos, estabelecendo um laço de confiança para que se perpetue a sua imagem de pai e protetor. Mas sobretudo dançaram, porque é dia de festa, não de trabalho. Há um clima geral de alegria e um sentimento compartilhado de missão cumprida. Agora vamos comer.
Uma festa termina com comida farta. Arroz, farofa, carnes, saladas são pratos preferenciais. E muita fruta, pois não há festa de caboclo sem uma profusão de frutas de todas as espécies: jaca, melancia, melão, laranja, tangerina, abacaxi, mamão, abacate, banana, fruta-do-conde, caju, carambola, maçã e até quiuí, além de moranga, comida predileta dos caboclos. Refrigerante e cerveja completam o banquete dos caboclos.
Caboclo, candomblé e umbanda
Na grande maioria dos terreiros de candomblé de São Paulo, praticamente todos os filhos da casa têm caboclo, com exceção, evidentemente, dos não rodantes ogãs e equedes. Alguns caboclos foram trazidos diretamente da umbanda, a religião anterior de parte dos adeptos. Na passagem da umbanda ao candomblé, contudo, transcorre certo tempo antes que o caboclo volte a se manifestar. Somente após ter o filho-de-santo aprendido as novas posturas, formas de dançar e se expressar características do candomblé, geralmente na obrigação de um ano, o caboclo “baixa” no candomblé, já tendo assumido mudanças no jeito de falar e no gestual. Muitos, no entanto, não conheceram a umbanda, começando a carreira religiosa afro-brasileira diretamente no candomblé.
Não raramente, outras entidades umbandistas que não o caboclo podem também estar presentes em terreiros de candomblé. São os pretos-velhos, as ciganas, os baianos, os exus da umbanda e as pombagiras. Esta mistura religiosa é tão evidente que facilmente justifica ter-se forjado o termo “umbandomblé”, usado pelo próprio povo-de-santo para referir-se a terreiros de candomblé com entidades e ritos da umbanda. Por um lado, isto mostra a identificação simultânea de terreiros com duas modalidades. Por outro, demonstra que há um público que atende a essas duas vertentes. Afinal, os adeptos das religiões afro-brasileiras em São Paulo conheceram primeiro a umbanda e seus personagens povoam seu imaginário. Para o paulista, o candomblé dos orixás é de certa forma uma experiência cultural recente e sua compreensão ainda é mais difícil, como costumam explicar alguns líderes desta religião. Mas é verdade que a penetração da umbanda no candomblé não se restringe a São Paulo e outras cidades do Sudeste e do Sul, marcando já uma presença importante em terreiros de regiões do País identificadas como originárias das religiões afro-brasileiras tradicionais.
Um ritual religioso afro-brasileiro logo remete à imagem de pessoas incorporadas por espíritos, os guias, que oferecem consultas, dão conselhos e resolvem problemas. O candomblé de caboclo em São Paulo atende preferencialmente a um público que também se identifica com a umbanda, ou seja, pessoas que estão acostumadas a um traço específico da religião, a comunicação verbal com o espírito incorporado. Do ponto de vista econômico, trata-se de uma demanda evidente: uma população que busca o serviço religioso, mas não pode pagar o preço do jogo de búzios, que varia hoje entre trinta e cinqüenta reais.
Na passagem da umbanda ao candomblé, os terreiros redefiniram vários elementos rituais e simbólicos, inclusive no âmbito do sincretismo católico, mas não deixaram de lado o culto ao caboclo. O encontro do culto de caboclo do antigo candomblé com o kardecismo gerou no passado a umbanda. Atualmente, o caboclo constitui, num outro movimento, um trunfo do novo candomblé para avançar sobre o espaço umbandista. Como se a força renovada do “dono da terra” estivesse atuando nos movimentos que têm marcado a história das religiões afro-brasileiras, história que não estaria por certo concluída, pois “ainda tem caboclo debaixo da samambaia”.

Referencias bibliografica
Caboclo sultao das matas
Caboclo gentil
Diverssos zeladores de orixa

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